bastidores Jornal Nacional (recomendo leitura)

artigo de
Laurindo Lalo Leal Filho publicado na Carta Capital, edição número 371, de
título: “De Bonner para Homer”

DE
BONNER PARA HOMER
por Laurindo Lalo Leal Filho*

O editor-chefe considera o obtuso pai dos Simpsons como o espectador
padrão do Jornal Nacional

Ele é preguiçoso, burro e passa o tempo no sofá, comendo rosquinhas e
bebendo cerveja

Na reunião matinal, é Bonner quem decide o que vai ou não para o ar
Pauta.

A decisão do juiz Livingsthon Machado, de soltar presos, é considerada
coisa de  louco

Perplexidade no ar. Um grupo de professores da USP está reunido em torno
da mesa onde o apresentador de tevê William Bonner realiza a reunião de pauta
matutina do Jornal Nacional, na quarta-feira, 23 de novembro.

Alguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha dos principais
assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo o Brasil, dali a
algumas horas, é feita superficialmente, quase sem discussão.

Os professores estão lá a convite da Rede Globo para conhecer um pouco do
funcionamento do Jornal Nacional e algumas das instalações da empresa no Rio de
Janeiro. São nove, de diferentes faculdades e foram convidados por terem dado
palestras num curso de telejornalismo promovido pela emissora juntamente com a
Escola de Comunicações e Artes da USP. Chegaram ao Rio no meio da manhã e do
Santos Dumont uma van os levou ao Jardim Botânico.

A conversa com o apresentador, que é também editor-chefe do jornal,
começa um pouco antes da reunião de pauta, ainda de pé numa ante-sala bem
suprida de doces, salgados, sucos e café. E sua primeira informação viria a se
tornar referência para todas as conversas seguintes. Depois de um simpático 
bom-dia , Bonner informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que identificou
o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se que ele tem
muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com
siglas como BNDES, por exemplo. Na redação, foi apelidado de Homer Simpson.
Trata-se do simpático mas obtuso personagem dos Simpsons, uma das séries
estadunidenses de maior sucesso na televisão em todo o mundo. Pai da família
Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É
preguiçoso e tem o raciocínio lento.

A explicação inicial seria mais do que necessária. Daí para a frente o
nome mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional é o do senhor Simpson. 
Essa o Homer não vai entender , diz Bonner, com convicção, antes de rifar uma
reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não
compreenderia.

Mal-estar entre alguns professores. Dada a linha condutora dos
trabalhos   atender ao Homer  , passa-se à reunião para discutir a pauta do dia.
Na cabeceira, o editor-chefe; nas laterais, alguns jornalistas responsáveis por
determinadas editorias e pela produção do jornal; e na tela instalada numa das
paredes, imagens das redações de Nova York, Brasília, São Paulo e Belo
Horizonte, com os seus representantes. Outras cidades também suprem o JN de
notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas não entram nessa conversa
eletrônica. E, num círculo maior, ainda ao redor da mesa, os professores
convidados. É a teleconferência diária, acompanhada de perto pelos
visitantes.

Todos recebem, por escrito, uma breve descrição dos temas oferecidos
pelas  praças  (cidades onde se produzem reportagens para o jornal) que são
analisados pelo editor-chefe. Esse resumo é transmitido logo cedo para o Rio e
depois, na reunião, cada editor tenta explicar e defender as ofertas, mas eles
não vão muito além do que está no papel. Ninguém contraria o chefe.

A primeira reportagem oferecida pela  praça  de Nova York trata da venda
de óleo para calefação a baixo custo feita por uma empresa de petróleo da
Venezuela para famílias pobres do estado de Massachusetts. O resumo da  oferta 
jornalística informa que a empresa venezuelana,  que tem 14 mil postos de
gasolina nos Estados Unidos, separou 45 milhões de litros de combustível  para
serem  vendidos em parcerias com ONGs locais a preços 40% mais baixos do que os
praticados no mercado americano . Uma notícia de impacto social e
político.

O editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se os jornalistas têm a
posição do governo dos Estados Unidos antes de, rapidamente, dizer que considera
a notícia imprópria para o jornal. E segue em frente.

Na seqüência, entre uma imitação do presidente Lula e da fala de um
argentino, passa a defender com grande empolgação uma matéria oferecida pela 
praça  de Belo Horizonte. Em Contagem, um juiz estava determinando a soltura de
presos por falta de condições carcerárias. A argumentação do editor-chefe é
sobre o perigo de criminosos voltarem às ruas.  Esse juiz é um louco , chega a
dizer, indignado. Nenhuma palavra sobre os motivos que levaram o magistrado a
tomar essa medida e, muito menos, sobre a situação dos presídios no Brasil. A
defesa da matéria é em cima do medo, sentimento que se espalha pelo País e rende
preciosos pontos de audiência.

Sobre a greve dos peritos do INSS, que completava um mês   matéria
oferecida por São Paulo  , o comentário gira em torno dos prejuízos causados ao
órgão.  Quantos segurados já poderiam ter voltado ao trabalho e, sem perícia,
continuam onerando o INSS , ouve-se. E sobre os grevistas? Nada.

De Brasília é oferecida uma reportagem sobre  a importância do superávit
fiscal para reduzir a dívida pública . Um dos visitantes, o professor Gilson
Schwartz, observou como a argumentação da proponente obedecia aos cânones
econômicos ortodoxos e ressaltou a falta de visões alternativas no noticiário
global.

Encerrada a reunião segue-se um tour pelas áreas técnica e jornalística,
com a inevitável parada em torno da bancada onde o editor-chefe senta-se
diariamente ao lado da esposa para falar ao Brasil. A visita inclui a passagem
diante da tela do computador em que os índices de audiência chegam em tempo
real. Líder eterna, a Globo pela manhã é assediada pelo Chaves mexicano,
transmitido pelo SBT. Pelo menos é o que dizem os números do Ibope.

E no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do Jornal Nacional
daquela noite (no jargão, espelho é a previsão das reportagens a serem
transmitidas, relacionadas pela ordem de entrada e com a respectiva duração).
Nenhuma grande novidade. A matéria dos presos libertados pelo juiz de Contagem
abriria o jornal. E o óleo barato do Chávez venezuelano foi para o
limbo.

Diante de saborosas tortas e antes de seguirem para o Projac   o centro
de produções de novelas, seriados e programas de auditório da Globo em
Jacarepaguá   os professores continuam ouvindo inúmeras referências ao Homer. A
mesa é comprida e em torno dela notam-se alguns olhares constrangidos.

* Sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da
USP

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